sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

E QUE VENHA 2011!

Espero sinceramente que todos os meus amigos, visitantes e seguidores deste modesto blog recebam em dobro tudo aquilo que não conseguiram neste 2010 que, aliás, já vai tarde...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

SESSÃO INCIDENTAL - SENTENZA DI MORTE


   Como é também objetivo do deste blog divulgar a memória do cinema, o tópico "Sessão Incidental" abordará os mais diversos gêneros que eu tenho cultuado durante toda uma vida. E o western, principalmente o italiano, já abordado aqui no artigo A CAVALGADA DOS HOMENS SEM NOME, estará sempre presente. O filme SENTENZA DI MORTE é uma verdadeira jóia rara do ciclo "Spaghetti Western". Uma história focada na temática da vingança, porém, contada com estilo e uma abordagem mais profunda dos personagens. Um jovem pistoleiro, Cash [Robin Clarke em seu único western], persegue quatro assassinos de seu irmão, o que faz a narrativa desenvolver-se, aparentemente, em quatro episódios separados nos quais a desforra do rapaz se cumpre nas mais variadas formas. Violenta e eficaz. Realmente, o Eurowestern, peculiar na ação, notabilizou-se pelo estilo estéticamente barroco, presente nas imagens e nos belos cenários em sua maioria na Almeria, Espanha, com enquadramentos às vezes asfixiantes, para citar Sergio Leone, que definiu o gênero em suas produções, e uma trilha sonora sui generis, que certamente jamais se encaixaria numa produção americana, surgiu como uma releitura do gênero. 
   Eu, particularmente, nunca visualizei nenhum aspecto dos EUA nas produções italianas. É como se tivesse existido um espaço mágico verdadeiro na Europa, uma fronteira sem nome onde haviam sempre heróis amorais, vilões sádicos, mulheres belíssimas capazes de seduzir e matar ao mesmo tempo, cidades onde a presença da lei era quase um mito e, como aditivo sonoro, uma melodia fúnebre que atingia o ápice quando o confronto acontecia, geralmente sob as cores do crepúsculo. E em SENTENZA DI MORTE não é diferente. E como poderia ser, se o diretor Mario Lanfranchi [Aqui tembém em seu único western] reuniu o inesquecível Richard Conte e os ícones Enrico Maria Salerno, Adolfo Celi e Thomas Millian [Roubando aqui a cena assustadoramente, como um psicopata assassino] para contar uma fábula adulta sobre uma perseguição implacável? O ator Robin Clarke, apesar de estar como figura central em meio à tarimba dos já citados, está bem melhor que John Phillip Law no clássico A MORTE ANDA A CAVALO, que tem argumento semelhante. Lamento ser esta a sua única, porém marcante, aparição no gênero. A trilha sonora de Gianni Ferrio é ótima e emoldura perfeitamente cada cena. O filme tem áudio em italiano e vem com legendas em inglês que pouco tem a ver com grande parte do diálogo original. Eu fiz questão de criar minhas próprias legendas a partir do áudio italiano e fiz a sincronia. SENTENZA DI MORTE é um western vigoroso, altamente recomendável e que bem poderia servir de estudo para realizadores atuais que ainda não entenderam porque Tarantino e Rodriguez ainda surpreendem.
Download aqui

domingo, 26 de dezembro de 2010

ALFARRÁBIO 1 - Parte 3

E agora, o desfecho de um conto no qual não há  cenas de ação entre os personagens,  apenas a descrição de um momento vivido entre eles, mas que me serviu de exercício e estímulo para iniciar uma saga na qual faço uma grande homenagem a um leque de personagens do mundo macabro da literatura e do cinema. Um cross-over gigantesco, no qual eu procuro contar várias histórias interligadas, em diferentes cenários de uma realidade alternativa para os personagens e em diferentes épocas. Conto com os comentários de quem tiver tido um tempinho e interesse em ler as três partes. Eu agradeceria muito.


XIMENA - UM CANTO DE AMOR NAS TREVAS - Parte 3


     Ainda restava um fragmento de noite quando eles finalmente, extenuados, descansaram. Ela estava deitada abraçada a ele, seus longos cabelos ruivos espalhados sobre a face dele. Ela mexeu-se um pouco aninhando sua cabeça sobre o peito dele, acariciando-lhe os pelos do tórax. Ele olhava para o teto da cama de dossel pensando em nada, a não ser nela. Suplicando para que aquele  instante durasse o máximo possível.

- Diga-me – Ela falou – De onde você veio? Quem é você? É um homem, porém um tanto incomum... quase inumano.
- Sou um homem como qualquer outro, apenas fiz algumas escolhas diferentes, trilhei caminhos diferentes, andei por lugares onde alguns não ousariam nem em sonho e o destino que carrego fez de meu coração uma placa de granito, uma lápide, em alguns casos. Mas, agora, ao que parece, a dureza de tantos anos e tantas recordações, na maioria melancólicas, se desfez.
- Pode dizer o que estou pensando agora? – Perguntou ela.
  
    Ele fitou-a com um olhar sombrio, antes de responder:

- Não sei. Enquanto a perseguia, isso era fácil. Essa habilidade eu aprendi com um homem que viveu muito tempo no Oriente. Ele me chamava, quando eu era um garoto, de “Zaldunak”, que significa “Cavaleiro” na língua do povo dele, os antigos Bascos.
- Você viveu entre eles? – Ela ficou curiosa, algumas lembranças da velha Espanha afloraram-lhe na mente.
- Não. Ele apenas me treinou, quando eu perambulava pela Itália e a sua terra.
- Sabia que eu era espanhola?
- Sim, você pensa nisso muitas vezes.

   Ela sorriu e beijou-o de leve no queixo.

- Não sei se gosto de tê-lo invadindo meus pensamentos...
- Não acontece sempre, é preciso eu usar toda a força do meu treinamento para fazê-lo. Se fosse uma mulher comum, seria mais fácil. E, além disso, é preciso haver uma certa “ligação” entre mim e a pessoa.
- E a nossa foi a perseguição? – Perguntou ela.
- É isso. Eu queria apanhá-la e dessa forma, houve o contato.
- Que “técnica” é essa?

   Ele olhou para a lareira, cujas chamas  ainda crepitavam, como se quisesse buscar uma recordação remota em sua mente.

- Uma antiga arte milenar que foi usada durante séculos no Japão por uma sociedade de assassinos profissionais.
- Sei do que fala. Conheci um mestre em artes ocultas que me deu minhas espadas antes de morrer.

   Houve um breve silêncio entre ambos, quebrado quando os dois começaram a falar ao mesmo tempo. Ambos riram e ele falou primeiro.

- E agora? – Perguntou ele – O que somos um para o outro?

    Ela limitou-se mordiscar de leve o queixo dele, beijando-lhe o canto da boca. Soltou um suspiro leve, abraçando-se mais a ele e disse, com sua voz rouca:

- Pare com isso, sim? Não diga nada. Só me abrace e me deixe apenas ser sua agora, certo?

     Ele afastou um pouco os cabelos dela do rosto beijando-a ternamente na testa.

- Pode haver amor entre seres com esse dom que você me deu?

Perguntou ele, olhando fixamente para o teto.

- Você foi o único homem vivo que fez o que fez comigo.
- E o que eu fiz? Acho que foi o contrário, não? Você fez comigo.

     Ela mexeu-se olhando-o com aqueles olhos de íris cor de mel  que o atraíam tanto e falou terna:

- Eu fui mulher inteiramente, com você. Sempre faltou algo, mas eu me completei aqui. Se isso for amor mesmo, então somos os primeiros da espécie a experimentar  isso... só sei que não quero te deixar... pelo menos, não agora.

     Ele podia ler os pensamentos dela agora, o horror de cada união sexual que ela teve. Os arroubos animalescos e a morte sempre à espreita no final.

- Não quero te deixar nunca mais, Ximena. – Ele disse, acariciando-lhe a face perfeita. A mulher agarrou-se a ele. Sua coxa musculosa roçou-lhe a virilidade ainda um tanto ativa, como sempre acontecia aos homens daquela espécie. Ele mexeu-se inquieto e ela sorriu ao perceber.

- Quer mais?... – Ela disse, sorrindo maliciosamente.
- Não tinha certeza, mas agora... – Ele sorriu para ela, deslizando a mão pelo ventre da mulher até um pouco abaixo, onde havia uma porta que o levara ao extremo de uma noite sem fim, plena de luar e prazer selvagem. Ela fechou os olhos e disse:

- A velha cigana tinha razão...
- O quê? – Perguntou ele.
- Esqueça – Ela falou, deitando sobre ele, esfregando-se voluptosamente. – Apenas faça de mim sua mulher agora... só quero isso e mais nada...

     E ambos viraram uma única sombra na semi-escuridão. E o amor se fez, novamente.
   
                                           ______________________________                         
     
 O alvorescer surgiu em meio à nevoa que envolvia o castelo Karnstein. A Styria era ainda uma das regiões mais belas e selvagens da Europa. Seus vales, lagos e rios eram ainda um panorama de encanto e magia. Do alto, em uma janela de uma das torres do castelo, uma figura sinistra observava os dois cavaleiros lá embaixo. Gorna, o fiel guardião do castelo esperaria a volta da Condessa Mircalla para seu lugar de descanso e ele a protegeria como sempre. Distanciando-se devagar, um homem e uma mulher seguiam cada qual em sua montaria, alheios a tudo, enquanto se olhavam. Ele sentia-se maravilhado com a beleza dela na manhã, seus cabelos parecendo filtrar os raios de sol que dissipava a névoa rápidamente. Ela lhe sorria, atraída pelos olhos escuros e a face granítica do homem.

- Está faltando uma coisa. – Ela disse, com um olhar maroto.
- O quê? - Ele quis saber.
- Você ainda não me disse seu nome... quem é você?
- Muito estranho de sua parte, passar a noite na cama com um homem sem nome e só se importar com isso depois...
- Antes não era importante assim... – Ela disse, e ambos riram divertidos.

    Ele ficou falou serenamente olhando para o horizonte à frente:

- Chamam-me de muitos nomes... alguns deles bem estranhos. Que tal se tentássemos escolher um para você dirigir-se a mim, ao longo de nossa jornada?
- Uma proposta incomum... mas aceito. – E estendeu-lhe a mão onde, no dedo anular estava o anel que ele lhe dera.
- Virá mesmo comigo? – Perguntou, apertando-lhe a mão, esperançosa.
- Para onde você quiser, Loba Guerreira... - Os olhos dele brilhavam com paixão - ... E enquanto você quiser.

    E iniciaram um galope pelo vale à frente, em busca da fronteira e mais além, as montanhas da Transylvania e os montes Cárpatos, onde, num lugar que resistiu ao próprio tempo, um conflito iria ser decidido... mas isso em nada alteraria o destino de ambos, unidos para sempre pelo dom... e um estranho amor que surgiu entre a treva e a ruína.

                                                                           FIM



sábado, 25 de dezembro de 2010

ALFARRÁBIO 1 - Parte 2

Para a sequência do conto XIMENA, UM CANTO DE AMOR NAS TREVAS eu elaborei um clima mais idílico, com nuances eróticas, tentando porém, não cair no vulgar. É um texto menor, um pequeno esforço na arte de contar histórias, sem pretensão alguma. Apenas segui o que muitos escritores fizeram durante a vida inteira: escrever para si, para o próprio entretenimento e assim, consequentemente, atingir um público com igual empatia pelo texto.


XIMENA, UM CANTO DE AMOR NAS TREVAS - Parte 2

     Ele abriu os olhos devagar... o sono parecia ter deixado seu corpo mais leve, restaurado. Logo ele pegaria a estrada de novo. Tinha que levantar e verificar como estava o cavalo e... de repente parou. Fechou os olhos e lembrou. Estava numa cama agora, quente e confortável. Uma imensa cama de dossel, como há muito se via em livros de história antiga antes da “Queda” do planeta, com o “Advento das Eras”...  e era um quarto enorme também, com um teto nas alturas. Ele virou a cabeça e viu uma lareira a alguns passos da cama. Sentiu que estava despido por baixo das cobertas. Apoiou-se num cotovelo e olhou em volta. Ela estava ali também. Depois da lareira, dentro de uma banheira antiga banhando-se, aparentemente. Ela olhou para ele e seus olhos encontraram-se e ela sorriu para ele, deitando a cabeça de lado de um modo que o deixou encantado com aquela beleza. Ele passou a mão no local onde lembrava que havia sido atingido... haviam apenas os cabelos do tórax e duas pequenas marcas, feridas aparentemente antigas que não mais doíam.

- Estou vivo ainda. – Ele sorriu e disse de si para si.
- Espero que não se arrependa do que pediu... – Ela disse.
- Que lugar é esse? Como me trouxe?
- Você está no castelo Karnstein, próximo ao lugar onde eu o encontrei. Este lugar pertence à Mircalla e aos ancestrais dela. E não foi difícil trazê-lo até aqui... bem-vindo à sua nova existência e ao meu mundo... – Ela disse as últimas palavras bem devagar com sua voz forte e bem modulada. Uma voz de mulher acostumada a mandar e tomar decisões que dificilmente alguns homens tomariam.

- Pensei que você e os não-mortos fossem inimigos. – Ele comentou.
- Mircalla era inimiga até Rubio fazer um pacto com ela e ambos se apaixonarem. Desde então, passo aqui sempre.

     Nesse momento, uma figura saiu das sombras de um canto do quarto e estacou próximo dela. Era um homem de estatura gigantesca, calvo com uma face animalesca e trazia um castiçal na mão.

- Deseja algo para ele, senhora? – A voz gutural do homem parecia sair de dentro de uma cripta.
- Não, Gorna. – Disse ela – Eu cuido dele... – E disse e olhou de maneira estranha para o homem deitado na cama. Então ela pegou uma grossa toalha no encosto da banheira e o estranho recém-chegado desapareceu na escuridão de onde viera. Ela ergueu-se na banheira. O homem ficou maravilhado com a visão. Uma mulher com um corpo magnífico e bem trabalhado. Sob a luz das chamas da lareira, sua pele tinha um tom dourado e ela se enxugava com sensualidade, enquanto o encarava. Pôs-se fora da banheira e riu alto.

- Que maravilha é um bom banho... e quer fechar essa boca, por favor?

     Ele moveu-se embaraçado na cama e deitou-se de novo desviando a vista. Estava mesmo boquiaberto com a visão dela nua na sua frente. Ela caminhou enrolada parcialmente com a toalha até ele e parou na beira da cama.

- Você foi cuidado e colocado nesta cama por Gorna, que é servo e guardião do castelo, quando chegamos. Agora era a minha vez.

     Ele nada disse mas experimentou uma sensação estranha... sua percepção estava diferente. O quarto estava mal iluminado e em meio à penumbra mas mesmo assim, ele via tudo à distância... e sentia o calor dela bem mais próximo e o cheiro... o cheiro do seu corpo... e de tudo mais ali.

- Está mais perceptivo agora, entendeu? – Ela pareceu ler seus pensamentos. – É um sobre-humano. O homem que foi antes, morreu.

    Sim era isso. Ele se sentia revigorado, vivo e forte como nunca se sentira na mais tenra juventude. O calor que emanava dela mexia com ele agora... e ela o sentiu também. Sentiu a virilidade dele crescer e isso a excitou. O homem podia claramente, com sua nova condição, perceber nas narinas o cheiro almiscarado do sexo  da mulher , algo que fez sua masculinidade despertar com força. E ela sentou ao lado dele na cama.

- Você é muito homem... – Murmurou ela.
- Não a imaginava tão mulher. – Disse ele, com o peito em fogo e as narinas dilatadas.

- Acho que será diferente aqui... terá que ser... – Ela disse, o olhar perdido vagamente. Lembrou de quantas vezes tivera amantes e destruíra a todos por causa de sua maldição. Homens que eram estraçalhados vorazmente no momento em que ela atingia o orgasmo... e ficava sozinha outra vez, odiando a tudo e a todos.

     A mão dela deslizou até ele, tocando-o sobre as cobertas. Estava pronto para ela. Ele estremeceu com o toque e ela afastou as cobertas subitamente. Ele ficou embaraçado por uma fração de segundos mas não se alterou. Ela olhou para ele com uma ternura que não havia estado naqueles olhos antes. O coração do homem bateu mais forte quando a mão da loba guerreira o acariciou intimamente, emitindo um leve gemido. Ele sentou-se na cama, puxando-a para si, pela cintura. Ela pôde sentir-lhe a nova força, ele havia mesmo recebido o dom. Ambos ficaram face a face, entreolhando-se. Ela abriu a boca passando a língua nos lábios. Aquilo foi o bastante para ele, que colou sua boca na dela, que correspondeu ao beijo com um suspiro. O coração de ambos bateu aceleradamente e ela o empurrou para a cama, sentando sobre ele cavalgando-o. Mas ele não permitiu ser dominado e, com seu novo vigor, mudou a posição de ambos rápidamente, ficando sobre ela, que sorriu divertida. Ele baixou a cabeça sobre os seios cobertos de sardas, e principiou-se a beijá-los, ansioso. Ela contorceu-se na cama fechando os olhos e soltou um rouco gemido com sua voz possante. Estava excitada, apaixonada. A boca dele deslizou até o ventre dela, beijando o umbigo, descendo um pouco mais... e ela segurou-lhe os cabelos sem puxá-los, levantando um pouco a cabeça olhando para ele, atônita.

- Não quero assim... não agora... – Protestou ela, ávida. – Vem prá mim... quero sentir você...

     Ele obedeceu, deixando-a guiá-lo. Penetrá-la devagar e com jeito, apesar do anseio, era como mergulhar num sonho antigo que jazia há muito, em seu subconsciente. Ela o envolveu com as grossas e possantes coxas, puxando-o mais para dentro dela e ambos gemiam e suspiravam, seguindo o mesmo ritmo. Ficaram assim, noite adentro, hora ele sobre ela, hora ela cavalgando-o, ambos sufocando-se com beijos de fogo e sussurros apaixonados. O tempo não existia ali, naquele lugar maldito, onde o horror hediondo impregnara as paredes. Mas havia uma centelha de luz naquela união sobre-humana. Havia um ato de amor, ainda que sobrenatural, entre dois seres que a fatalidade unira. E nada mais mudaria aquilo, nem mesmo as trevas que moravam no castelo Karnstein.

Fim da segunda parte.


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

ALFARRÁBIO 1

Ao que me parece, alfarrábio nada tem a ver com texto velho e enfadonho, pelo menos na minha concepção. Para mim, trata-se de algo como um pergaminho, um papiro, um grimório, até, que pode ser traduzido e interpretado de várias maneiras, porém, nunca ingnorado completamente. Aqui vai um dos meus contos de estréia no reino do fantástico e do sobrenatural, e faz parte de uma saga imensa que venho escrevendo há muito... será apresentado em 3 partes.

XIMENA
um canto de amor nas trevas

Autoria: Cayman Moreyra


STYRIA, ÀUSTRIA, A TRÊS SÉCULOS DAQUI...

    A noite fria na floresta milenar, acolhia a guerreira solitária que perscrutava a escuridão com o instinto sobrenatural que ela carregava consigo. Montada no fiel garanhão negro de sangue árabe e espanhol, ela seguia devagar pela trilha, apreensiva, mas sem medo. Não conhecia o medo desde que fora tocada pelo dom das trevas em tempos remotos. Estava excitada sim, pelo decorrer da caçada na qual, pela primeira e irônica vez, ela era a presa.
    De vez em quando sacudia os longos cabelos ruivos olhando em todas as direções, farejando seu perseguidor... a pouca neve que havia caído deixara seus vestígios no caminho à frente e nos altos pinheiros que margeavam a trilha. Era uma noite fria como tantas outras que ela já havia atravessado sozinha ou com seu amo e protegido, que agora estava distante num outro país, num castelo que resistia ao tempo nos montes Cárpatos.
     E ela teria que seguir solitária desta vez. Seu destino teria que ser cumprido antes do final desta noite. Pelas mãos dela ou do caçador que vinha em seu encalço agora. Um homem que uma vez jurara matá-la por um motivo sem razão de ser. Uma vingança pessoal da qual ela era inocente. A besta que vivia nela já matara e se alimentara de vários seres no curso de sua existência, mas não daquela vez, não trucidara aqueles que seu perseguidor queria vingar.
     E ela não usaria essa força contra ele. Seu dom não seria despertado naquela noite... estranhamente seu coração pedia que não fosse assim.
     Havia um clarão tênue lá na frente, na trilha. Uma cabana, uma caverna talvez... e alguém que, por alguma razão, habitasse aquelas regiões impenetráveis. Ou mesmo alguém que a esperasse para o confronto final. Ela estava cansada do jogo de gato e rato que começara há meses na Espanha e continuara até a Europa Central, na Transylvania e quase culminara no castelo Pandarin, nos montes Cárpatos.
   Sim, aqueles que o tempo ajudou a esquecer no passar  dos séculos haviam despertado. E com eles, até mesmo uma entidade que dormia nas trevas desde os primórdios da humanidade. E todos estavam unidos para uma bizarra conferência que decidiria de que lado ficariam contra uma força ainda mais maléfica que a deles juntos. Ela, Ximena Velasco, guardiã e companheira inseparável de Rubio Esteban Velasco, o vampiro predador, seu ancestral, estavam ali. Mas ela teve que deixar seu amo para resolver de uma vez por todas aquele conflito com o temível caçador que estivera lá também... e lhe dera uma dianteira.
     Agora, devagar e aos poucos, ela enxergava melhor no escuro. Seu instinto de loba predadora, divisava através da escuridão que se tratava de uma pequena fogueira no fim da trilha. Inexplicávelmente ela fora atraída para aquele lugar como um imã. Entrara na Áustria para ir ao castelo Karnstein, lar ancestral de uma imortal que agora estava junto dos outros imortais no castelo Pandarin. Fizera isso para atrair o caçador. Mas, ao contrário, fora atraída por ele.
    
     Ficou irritada com isso. Nenhum homem a fizera sentir-se assim. E ainda mais sendo um inimigo.

     Apeou do cavalo e começou andar na trilha a pé, devagar e alerta a qualquer movimento nas trevas. Suas compridas botas de couro que passavam dos joelhos faziam um barulho singular no solo. Mas ela não se importava. Sabia que ele era consciente de sua presença ali.

     Alguns metros de caminhada levaram-na até a clareira... e não havia ninguém, apenas uma pequena fogueira acesa, um cavalo amarrado a um arbusto e algo, que parecia ser um alforje não muito distante do fogo.
    
     Mas ela sentia uma presença. Seus sentidos selvagens ficaram em alerta. Tudo poderia acontecer a qualquer momento. Ela tocou com firmeza o cabo de um das espadas curtas banhadas com prata por um artesão oriental, que ela carregava presas às costas. A prata imaculada não era tão nociva para ela, que tinha um dom diferente daqueles que eram marcados pela licantropia.

- Já não era sem tempo, loba guerreira. – Uma voz forte veio da sua direita e um homem alto de trajes escuros saiu detrás de um arbusto.

     Ela voltou-se para a direção da voz ainda em alerta, e procurou olhar para as mãos dele, que carregava duas armas presas acima da cintura, com os cabos voltados para frente. Ela já vira o que aquelas armas eram capazes de fazer e com que rapidez faziam.

     O homem deu alguns passos na direção dela e parou.

- Veja – Disse, tirando as armas devagar e atirando-as ao solo.
- Estou à sua mercê, agora. – Continuou ele - E pode fazer como quiser, para mim nada mais importa.

     Ela ficou atônita. Passou mão enluvada pela linda e vasta cabeleira vermelha. Aquele homem deixou-a confusa naquele instante.

- Você me perseguiu até aqui para o quê? – Vociferou ela, irritada.
- Eu não a persegui, fiz com que viesse a mim.

     Era verdade. Ela sabia, e irritava-se com isso. Em sua cabeça, durante a longa cavalgada pelas florestas e vales da Europa, ecoavam palavras e pensamentos como se a guiassem até ali. Ele tinha o dom da telepatia, ela o sabia. Apenas não gostou de ter um suposto inimigo controlando sua mente.

- Sei de tudo agora. – Disse ele – Você não é quem eu procuro... Já achei os culpados verdadeiros há duas noites.

     Ela não disse nada. Limitou-se a cruzar os braços, meio confusa e ele adiantou-se até a ela mais um pouco.

- Eu tinha que fazê-la vir até a mim. Tinha que falar-lhe sobre o que descobri. – Ele estava próximo a menos de um metro. Se ela quisesse, poderia atirá-lo a uma grande distância com sua enorme força sobrenatural. Bastaria um tapa. Mas não o faria. Queria ficar perto dele, pois sentia que havia algo errado com aquele homem... como se estivesse a ponto de cair morto ali mesmo.

- O que há de errado com você? – Perguntou ela.
- Estou morrendo. Os licantropos que matei na noite passada foram minha última caçada.
- Pensei que eu fosse sua presa.
- Não era mais, loba guerreira, desde que deixei o castelo Pandarin em seu encalço.

     Ela o encarou e seus olhos cruzaram-se pela primeira vez sem animosidades. Ela não sabia por que, mas estava sentindo compaixão.

- Você está ferido? Foram eles? Os lobisomens que matou? – Ela quis saber.
- Eles sequer se aproximaram de mim o suficiente. Estou morrendo por que sofro de um mal incurável.
- O que fez com que mudasse com relação a mim?
- Foi Vlad. Ele me abriu os olhos. Acho que devia isso a mim.
- Vlad... – Ela sorriu e murmurou, lembrando as palavras do vampiro-rei para ela própria: “ Antes do fim de algumas noites, você irá confrontar-se com seu destino, loba guerreira. Ele está em suas mãos e nas mãos de um mortal... que não tem muito tempo.”

     Ele balançou o corpo um pouco, como se fosse cair. A mão dela tocou seu braço com firmeza e ele sorriu ao sentir a força descomunal daquela mulher que carregava dentro de si o estigma da besta selvagem. Uma mulher-lobo.

- Obrigado. – Ele agradeceu – Mas acho que é o fim, quero que me perdoe...
- Você não precisa dizer isso. Eu não lembro mais o que houve... é estranho, mas não tenho mais ódio de você...

     E ficaram ali calados. Ambos se olhando. Ele quebrou o silêncio:

 - Haviam três homens dentro de mim... há alguns dias. Só resta um deles agora. Um queria matá-la, outro conhecê-la e o terceiro... por mais estranho que pareça... queria amá-la.

     Ela tirou a mão do braço dele e franziu a testa. Os lindos olhos cor de mel brilharam com intensidade.

- Qual dos três resta agora? – Ela quis saber.
- Penso que é o terceiro. Mas antes que você diga algo... quero que fique com isso. – E assim dizendo tirou do colete um anel de rubi que brilhava como sangue e fogo ao mesmo tempo.

     Ela recebeu e ficou com ele na mão encarando o homem. Os olhos escuros dele estavam serenos. Ela não sabia o que dizer.

- Pertenceu à minha família. É o que restará de mim logo mais.
     Ela guardou o anel no bolsinho de seu próprio colete e sorriu para ele.

- Quer que eu o use como gratidão por haver me poupado?
- Faça como quiser. Apenas fique com ele agora.

     Ele olhou em volta como se procurasse algo e disse:

- Implorei aos imortais que me fizessem um deles antes... não queria deixar este mundo assim. Mas negaram. Até mesmo seu mestre. O vampiro Velasco.
- Por que acha que isso o salvaria? – Perguntou ela – Quer mesmo abdicar de sua alma? Não sabe que conseqüências isso traria?
- Não tenho mais nada a perder, bela Ximena.

     A maneira como ele falou foi terna, ela sentiu isso. E teve um pouco de pena... e algo mais. Mas não sabia explicar o quê. Seus instintos sobrenaturais estavam bloqueados agora, como a velha cigana disse que estariam um dia, no passado.

“- Deverá encontrar um companheiro, menina. Há sempre um homem entre mil. Ser abraçada por ele, sentir sua força... isso não será submissão de sua parte... será amor.”

     Agitada, sacudia agora a cabeça tentando afastar a imagem da velha e suas palavras. E então ela começou:

- Você quer mesmo viver a qualquer preço? Mesmo que isso lhe custe sua alma imortal?
- Eu me sentiria feliz até mesmo sendo igual a você.
- Acha que sou feliz assim? Acha que é bom viver às vezes como uma besta assassina?
- Não sei... só sei que quero viver. Entendeu? Viver... – E dizendo isso, seu rosto virou uma máscara de dor e ele amparou-se nela segurando-lhe os ombros.

      A mulher ficou ali parada, encarando-o, hesitando. Um dilema estava em sua mente. Poderia salvá-lo, isso era certo. Os outros imortais também poderiam tê-lo feito. Mas teria sido um milhão de vezes pior, se isso tivesse acontecido. Com ela, seria algo mais brando, sua maldição era quase uma benção, comparada à deles.

- Sabe que mudará para sempre, não sabe? – Ela advertiu.
- Se for fazer algo por mim, faça logo, diabos! – Ele estava tremendo. Teria que ser feito logo. E ela começou. No caso dela, não havia diferença se havia ou não lua cheia. Sua maldição viera de um toque diferente. Ela não era como os lobisomens da lenda, monstruosos, animalescos, sanguinários o tempo todo. Ela mudava de forma de um jeito mais peculiar, seu aspecto ficava apenas mais glabro, as feições pouco lembravam as de um animal. Mas a lua às vezes fazia com que o lado bestial viesse à tona às vezes, mesmo ela se transformando com um talento natural.

- Será como deve ser... – Ela disse e começou a invocar imagens e pensamentos de fúria e emoções fortes. A excitação percorria seu corpo e a adrenalina subiu a graus inconcebíveis. Ela tremia toda e ele sentiu isso. Sentiu que ela parecia crescer ainda mais, apesar de ser uma mulher grande e forte. Os olhos dela brilhavam com mais intensidade e haviam pelos crescendo na linda face. A boca abriu mostrando um par de presas ainda mais temíveis que as dos vampiros. Mas ele não temia aquilo. Já se acostumara ao terror sobrenatural desde criança.

     E de súbito, ela atacou. Suas mãos adentraram-lhe o colete por baixo do sobretudo, rasgando-o. Tudo que ele pôde sentir foi uma mordida quente e forte no lado esquerdo do peito. Uma dor seguida de uma sensação de choque percorreu-lhe o corpo e ele sentiu-se num turbilhão de situações diferentes. Imagens diversas passavam em sua mente torturada... desde a infância infeliz até há algumas noites em meio à sinistra reunião no castelo Pandarin... O aspecto tenebroso do Conde Orlock... o sorriso de escárnio do vampiro Lestat... o olhar de volúpia de Mircalla... as palavras do Conde Drácula quanto ao seu destino... as ameaças  do Barão Van Helsing, caso ele não entrasse para a sua temível “Legião”, o olhar curioso de Barnabas Collins, o semblante trevoso do Visconde  Armand Tesla, a beleza infernal da deusa Lilith, mãe de todos os imortais... o vampiro Velasco encarando-o sinistramente... e ela... Ximena... sempre ela... era dela que ele seria feito... era ela que o atraía... era por ela que ele morreria... mas ele não queria morrer... queria que ela soubesse... que ele a amava... ela tinha que saber!...

     Um uivo ao longe foi tudo que ele ouviu antes de perder a consciência. A dor o levara ao extremo de sua resistência...

Fim da Primeira parte.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

CRÔNICA DE UMA SESSÃO À BALA - NA TRILHA DOS HOMENS SEM NOME Parte II

E continuando a segunda parte deste artigo, veremos agora um aprofundamento do tema e algumas curiosidades de época que dão um sabor de saudosismo que só nos faz lamentar a excassez criativa e a inércia do cinema atual, que bem poderia dar uma espiada no velhos realizadores e tentar aprender um pouco, ao invés de partir para "blockbostas" cada  vez mais "manjados" e estereotipados, cheios de cortes e confusos que, quando muito esclarecem um pouquinho os furos do roteiro com edições mais "completas" em DVD ou BLURAY...

Uma multidão de curiosos acerca-se de um homem montado em um cavalo com uma corda pendendo frouxa, em seu pescoço. Enquanto é lida sua sentença por um juiz do vilarejo, o indivíduo parece estar entediado de tanto esperar pelo término da leitura de sua longa lista de crimes. Quando é dada a ordem para que o xerife local bata no animal, cumprindo assim a sentença, ouve-se um disparo de rifle e o prisioneiro escapa seguido por seu salvador. Mais adiante, num esconderijo qualquer, os dois dividem a quantia da recompensa pedida pelo bandido. Logo mais, os dois repetem o golpe: o caçador de recompensas leva o criminoso preso até a cidade mais próxima e reclama o prêmio pela sua cabeça que, por sinal já aumentou, e depois o salva na hora certa para em seguida dividirem o dinheiro. Seqüência típica do Western Italiano, repleta de ironia e humor negro. O quadro descrito pertence a um dos mais importantes filmes do ciclo: “THE GOOD, THE BAD AND THE UGLY”. Obra-prima de Sergio Leone, aqui talvez em seu melhor filme, cuja realização já foi considerada a mais barulhenta e cara produção do gênero. Para a infelicidade dos críticos, o filme em si é antológico e conta uma espécie de fábula para adultos, em que três homens, envolvem-se em uma busca por uma enorme quantia de dinheiro roubada em plena Guerra Civil Americana, cada qual tentando sobrepujar o outro até um inesquecível confronto a três. O famoso “TRIELLO”, como ficou conhecido.

No ano da produção deste filme, a trilha dos homens sem nome estava em pleno auge, com várias películas lançadas ao mesmo tempo por vários realizadores. Filmes que variavam de tema e qualidade, mas com a mesma identidade: usar no espaço mágico do “Western” todo um simbolismo que pudesse mostrar nas telas os efeitos culturais que causaram as transformações e mudaram a cara do mundo nos anos 60. Embora muitos pensem que nas produções italianas tudo era farsa e brincadeira, havia muita coisa por trás dos roteiros que a Cinecittà produzia. E o velho Monument Valley, no Utah/Arizona, foi temporariamente substituído pelas planícies da Almeria, na Espanha, onde a maioria dos filmes tinha locação, pois, várias estrelas do cinema Norte-Americano, além de Clint Eastwood, passaram a fazer parte daquele cenário: astros bastante conhecidos como Charles Bronson, Yul Brynner, Eli Wallach, John Ireland, James Coburn, Van Johnson, Van Heflin, Chuck Connors, Tab Hunter, Jeffrey Hunter, Audie Murphy [imaginem só! Em um de seus últimos filmes “The Texican”], Burt Reynolds, Joseph Cotten, Rod Cameron, Guy Madisson, Alex Cord, Jack Elam, Jack Palance, Mark Damon, Cameron Mitchell, Tony Anthony, Hunt Powers, Gordon Mitchell e outros, além dos ícones absolutos: Eastwood e Lee Van Cleef.
 
A Itália parecia ser a terra prometida e o Western ganhou uma densidade tão grande que muitos ousaram dizer que diretores como Sergio Leone eram precursores de um cinema novo. Outros “homens sem nome” vieram de outras partes do mundo, cavalgando em busca de um lugar na fronteira: George Hilton, do Uruguai, Tomás Millian, de Cuba, Gianni Garko, da Iugoslávia, William Berger, da Áustria, Klaus Kinski da Alemanha e... nosso saudoso Anthony Steffen do Brasil. É isso mesmo, tivemos também nosso homem sem nome, apontado até hoje, como um maiores ícones do Western Spaghetti e talvez o ator que mais protagonizou o personagem Django. Houveram rumores de que mais um brasileiro teria sido cogitado para fazer parte desse time: Tarcísio Meira. No entanto,não há nada de concreto sobre isso, mas já deu para imaginar “Il PistoleiroDell’ Ave Maria” protagonizado por ele?

O western italiano trouxe também um formato novo para o gênero e o impacto dessa inovação ficou claramente definido na abertura dos filmes, com montagens animadas mostrando uma linguagem cinematográfica mais atraente, ligada à música e esta sim, tornou-se uma característica típica, cujas trilhas tornavam-se antológicas logo no lançamento dos filmes. Não era raro ver alguém assobiando os temas na saída dos cinemas e depois os comentários: “Como era mesmo a música do duelo?”, “Rapaz, que trilha legal a deste filme que está passando!” Era incrível como o público daquela época, longe ainda dos arroubos sem nexo da mídia de hoje, tinha ouvido. E surgiram logo os monstros sagrados do Spaghetti Western, a começar pelo “Papa” das partituras cinematográficas: Ennio Morricone, o homem que realmente mudou a cara das trilhas sonoras e incidentais. Suas composições não têm preço no acervo cultural do cinema e o Oscar por ele recebido pelo conjunto de sua obra veio, em minha opinião, tardio. Não é à toa que Sergio Leone tenha dito que a música de Morricone falava mais do que os diálogos do roteiro. Todos os filmes de Leone têm sua marca. Morricone ainda fez as belas trilhas de: “O Retorno de Ringo” e “Uma Pistola para Ringo”, “Face a Face”, “O Dia da Desforra”, “Companheiros”, “Os violentos vão para o Inferno”, “7 Pistolas Para os McGregors”, e muitos outros. Além de Morricone outros nomes importantes foram Bruno Nicolai (que dirigiu muitas de suas trilhas), Luis Bacalov, Vasco e Mancuso, Nora Orlandi, Nico Fidenco, Marcelo Giombini, Stelvio Cipriani, Guido e Maurizio de Angelis e Francesco de Masi (falecido recentemente -“Dio te Acompagne”) que, ao lado de Fidenco, mais se aproximou de Morricone em termos de criatividade, mostrando uma característica própria de compor com trilhas que logo lhe deram destaque: “Quanto Costa Morire”, “Sartana Non Perdona”, “7 Winchesters Per Un Massacro”, “Arizona Colt” e outras mais, todas excelentes. E também merecem ser citados os cantores, sim, uma grande safra de belas vozes que nada deviam a Frankie Laine, Ed Ames ou Johnny Cash: Maurizio de Graf, Bobby Solo, Peter Tevis, Christy, Nico Fidenco, Sergio Endrigo, Don Powell, Rocky Roberts, Roberto Fia, Raoul, etc... Muitas das trilhas sonoras devem sua força à interpretação destes artistas, sempre bem inspirados. E muitas vezes, o filme em si era bem menor que o tema...

Epílogo:
 
Do período Áureo até o apogeu, o Spaghetti Western trouxe para o mundo um visual barroco, sarcástico, violento e muitas vezes politicamente incorreto, como foi o caso de “A Bullet for the General” e “The Big Gundown” de Damiano Damiani e Sergio Solima, respectivamente. Entre os grandes realizadores, além de Leone, houve mais três Sergios: Sollima, Corbucci e Garrone, todos com obras de renome. Ainda é preciso destacar grandes nomes como Romolo Guerrieri (Django mata por dinheiro/10.000 Dólares para Django), Duccio Tessari (Uma pistola para Ringo), Frank Kramer (Sabata, Sartana), Giulio Petroni (A morte anda a cavalo), Tonino Valerii (o dia da ira), Enzo G. Castellari (Keoma), Carlo Lizzani (Réquiem para matar), Ferdinando Baldi (Blindman)...
 
Uma observação:
- Há aqui um nome que geralmente não é incluído nas listas dos melhores, mas que certamente, deve ser lembrado: Demofilo Fidani, considerado o “Ed Wood” do Western Italiano. Justa ou não a comparação, guardo na lembrança um de seus filmes com muito carinho, pois foi um dos primeiros que vi num saudoso “poeira” da minha cidade: “Django e Sartana no Dia da Vingança [Arrivano Django e Sartana, è la fine]”. Pode até ser que Fidani mereça a alcunha, pois, como Ed Wood, ele com certeza amava o cinema e trabalhava em condições precárias. O Django feito por Hunt Powers, um de seus atores prediletos, é bem diferente de Franco Nero ou Anthony Steffen. E falando em diretores ruins, Fidani perde feio, para a maioria dos pseudocineastas dos “Block-Busters” atuais.

- O cinema de hoje bem poderia fazer uma saudosa homenagem e voltar a ocupar as pradarias da Almeria, não ao estilo de “800 Balas”, que por sinal é um bom filme, mas com uma homenagem totalmente fiel às melhores produções daquele ciclo dourado. Que Tarantino e Robert Rodriguez nos ouçam! Aqueles que como eu, tiveram a sorte de estarem presentes lá, sempre com algo de novo ou uma boa reprise para ver, sentem saudades de ver todos os heróis como sempre estiveram, solitários ou no máximo a três: Ringo, Django, Sartana, Pecos, Sabata, Gringo, Trinity e seu inseparável irmão e até o último deles, Keoma. Eram e serão sempre, eternos, cavalgando em nossas memórias daqueles cinemas obscuros, muitos dos quais não resta sequer... um nome.

By Cayman Moreyra

A small crowd gathers around a man tied over a horse. He has a rope around his neck and he is just waiting to be hanged for an incredibly long list of crimes. While the Sheriff reads the sentence, the man seems to be bored, just waiting for the end of that tedious reading. When the order to carry out the sentence is given, we hear a shot that cuts the rope around the prisoner’s neck who escapes from the town, followed by his savior. A few miles away, the two men divide between them the bounty offered for the bandit. Soon, the two men are repeating the sting: in another town, the fake bounty hunter earns an even bigger reward for the bandit, only to save him a little later. This is a typical example of a Spaghetti Western scene, full of irony and a dark sense of humor. The sequence described above comes from Sergio Leone’s classic “THE GOOD, THE BAD AND THE UGLY”, maybe his best film, whose production was considered the noisiest and most expensive movie of the genre. But unfortunately for the critics, the film is anthological, some kind of adult fable that tells the story of three men searching for a hidden treasure during the years of the American Civil War. As we know, the last confrontation of the three men became history: the famous “Triello”
In the same year that saw the release of “THE GOOD, THE BAD AND THE UGLY”, the trail of the “Men with no Name” was in full bloom, with many productions being made. The quality and thematic of those movies were very variable, but all of them had the same identity: to use the magic ambience of the “Western” to show the cultural effects that were changing the face of the world during the 60s. Despite the fact that many critics thought that everything about the Italian western was fake, artificial, there were a lot of significance behind the screenplays produced at Cinecittá. And the old Monument Valley in the Utah/Arizona border was temporally replaced by Almeria, in Spain, where many films were shot because many American stars started to be part of that landscape: Charles Bronson, Yul Brynner, Eli Wallach, John Ireland, James Coburn, Van Johnson, Van Heflin, Chuck Connors, Tab Hunter, Jeffrey Hunter, Audie Murphy, Burt Reynolds, Joseph Cotten, Rod Cameron, Guy Madisson, Alex Cord, Jack Elam, Jack Palance, Mark Damon, Cameron Mitchell, Robert Woods, Brett Halsey, Tony Anthony, Hunt Powers and Gordon Mitchell among others, besides the absolute icons: Eastwood and Lee Van Cleef.
Italy seemed to be the Promised Land and the western achieved such a stage of poetical depth that many dared to say that movie directors like Sergio Leone were the creators of a “New Cinema”. Other “Men with no Name” came from the four corners of the Earth, riding in search of their place in history: George Hilton, from Uruguay, Tomás Millian, from Cuba, Gianni Garko, from Yugoslavia, William Berger, from Austria, Klaus Kinski from Germany and our beloved Anthony Steffen, the Brazilian/Italian actor. Yes, Brazil also had its Western star, maybe the actor who played more often the character Django.
The Italian western brought a new concept for the genre, and the impact of this innovation became very clear in the cartoonish opening credits of many films, with great use of animation together with that magnificent new style of music. The music became on of the most recognized trademarks of the genre, and some achieved great success at the time of its release. It was very common to hear people whistling the themes of the movies after the sessions. Dialogs like “How was that song on the duel?”, “Man, what a groovy soundtrack this film has!” were present everyday after people went those movies. Soon, real Spaghetti Western legends were created, like Ennio Morricone, the master of the soundtracks, a man who really changed the face of film music. His compositions are priceless, Cinema history, and his Academy Award came too late for such an unbelievable artist. Sergio Leone used to say that Morricone’s music sometimes had more to say than the dialogs of the script. Morricone was responsible for the soundtracks of all the westerns made by Leone. He also created the music for “A pistol for Ringo”, “The return of Ringo”, “Big Gundown”, “Face to Face”, “Companeros”, “The mercenary”, “Seven guns for the McGregors” among many others.
But there were many other great musicians in the genre like Bruno Nicolai, Luis Bacalov, Vasco and Mancuso, Guido & Maurizio de Angelis and Francesco De Masi (“Dio te Acompagne”), who was one of the most popular composers of the SW. He showed a great personality and creativity, creating unforgettable scores for films like “Quanto costa morire”, “Sartana non perdona”, “7 Winchester per un massacro” and “Arizona Colt”. Some great singers are also worth of note. Singers whose voices were in the same level of Frankie Lane, Ed Ames or Johnny Cash: Maurizio de Graf, Bobby Solo, Peter Tevis, Christy, Nico Fidenco, Sergio Endrigo, Don Powell, Rocky Roberts, Roberto Fia, Raoul, etc...
A big part of the power from the SW soundtracks comes from their performances in the songs. And some times, those songs were better than the films...
EPILOGUE:

From the early days until its apex, the Spaghetti Western brought to the world of cinema a baroque, sarcastic and violent look. The genre was, very often, politically incorrect. Also, a very strong left winged political point of view can be seen in such movies like “A bullet for the General” and “Big Gundown”, by Damiano Damiani and Sergio Sollima respectively. Among the filmmakers, besides Sergio Leone, there were other three Sergios: Sollima, Corbucci and Garrone. All of them were real masters of the genre. Many other filmmakers can be considered of great importance: Romolo Guerrieri ($10.000 Blood Money), Duccio Tessari (A Pistol for Ringo), Frank Kramer (Sabata, Sartana), Giulio Petroni (Death Rides a Horse), Tonino Valerii (Day of Anger), Enzo G. Castellari (Keoma), Carlo Lizzani (Kill and Pray), Ferdinando Baldi (Blindman)...

A comment:

There is one name that usually is not included in the lists of the best filmmakers, but certainly, must be remembered: Demofilo Fidani, considered the “Ed Wood” of the Italian Western. It doesn’t matter if that comparison is fair or not, I fondly remember one of the first films I saw on the big screen at a much missed Grindhouse of my town. It was “Arrivano Django e Sartana, è la fine”, starring Hunt Powers. Maybe Fidani deserves to be called Ed Wood of the Italian Westerns; both of them worked in precarious conditions and loved the cinema.

It’s about time to make a real homage to the Spaghetti Western, using once again the landscapes of Almeria. Not a homage like “800 Bullets”, a good film by the way, but an authentic western, true to the tradition of the Italian masters. I hope Quentin Tarantino or Robert Rodriguez are reading this article! Those who, like me, lived those glorious days, are long waiting for our missed heroes to return like they were: immortals, eternally riding in our memories, our memories of those obscure movie theaters, which no longer exist, not even… a name.



CRÔNICA DE UMA SESSÃO À BALA - NA TRILHA DOS HOMENS SEM NOME

Resolvi postar aqui um artigo muito festejado que eu já havia postado no saudoso blog DOLLARI ROSSO do meu amigo César "Sartana". Foi algo que adorei escrever e que me deu a oportunidade de exteriorizar minha paixão pelo western, principalmente o italiano, que cativou o mundo nos anos 60 e 70. E eu estava lá! E tive  o privilégio de ver muitas das produções quase ao final no ciclo, em sessões de reprises e últimos lançamentos, com censura e sem censura, com ou sem minha saudosa carteirinha de estudante com idade alterada, ahahahaha, tinha que ser assim. Afinal, qualquer cinéfilo que preze faz o possível e o impossível por suas paixões na telona, não é? Bem, o artigo foi elogiado aqui e lá fora e espero que aqueles que não tiveram oportunidade de vê-lo, façam-no agora, com a primeira parte, ei-la:

A CAVALGADA DOS HOMENS SEM NOME - Parte I

No final dos anos 60, o Western produzido na Itália, mais conhecido como "spaguetti western" já havia  atingido o ápice e o gênero, típicamente Norte-Americano, havia passado não só por uma revisão, como também, por uma desmistificação quase que total, salvo algumas produções  que ainda mostravam na tela vestígios dos velhos clássicos de John Ford, Howard Hawks e Delmer Daves, dentre outros. O foco central da temática italiana no Western, longe da sátira e da crítica, resume-se na estrutura barroca das  primeiras produções de Sergio Leone que também como muitos outros, foi influenciado por algumas produções clássicas que serviram de suporte para a estética do "spaguetti western". Pelo menos 6 filmes  produzidos nos EUA entre as décadas de 40 de 50, formaram a base do Western Italiano. Eis os títulos: "JOHNNY GUITAR", "O MATADOR", "WINCHESTER 73", "VERA CRUZ", "3:10 TO YUMA" e "UM CERTO CAPITÃO LOCKHART". E há ainda, três produções que incontestavelmente, são consideradas "cult" até hoje na Itália e no Brasil:  "RASTROS DE ÓDIO", "NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS" e "RIO BRAVO".  Engana-se portanto, quem pensa que a postura violenta, sarcástica e muitas vezes niilista dos Westerns dos anos 60 é típica apenas da estética do Western Italiano. Para se ter uma idéia a respeito, basta dar uma espiada no personagem de Burt Lancaster em VERA CRUZ, na ambientação de JOHNNY GUITAR ou na tortura sádica sofrida por James Stewart em UM CERTO CAPITÃO LOCKHART e isso sem falar na vingança cega que é a temática central de WINCHESTER 73, também com Stewart. Tudo que os italianos, [admiradores inveterados do Western, para citar as produções em HQ, como EPOPÉIA, TEX e KEN PARKER] tiveram que fazer foi pôr alguns ingredientes a mais na massa e daí surgiu um estilo que, em menos de uma década, deitou por terra toda uma mitologia que Hollywood criou e consolidou ao longo de mais de meio século de cinema propangandístico do "AMERICAN WAY OF LIFE" ainda tão em voga nos anos 60, mesmo com a conscientização pública do mundo sobre a política externa  dos EUA e sua democracia limitada e imperialista. Quem acompanhou o trem da história naquela época, viu a morte de Martin Luther King, a tentativa frustrada de invadir Cuba, a mancha de sangue na família Kennedy, os rumores da formação de ditadores em países do terceiro mundo e a humilhação sofrida pelo governo norte-americano no Vietnam, dentre outras mazelas. E o que restava no cinema? Bom, muitos puseram a culpa na tv quando o Western feito na América começou a perder o mercado para os europeus. Se bem que, séries como O HOMEM DE VIRGÍNIA,  BONANZA, CHAPARRAL, BRANDED e CIMARRON STRIP também beberam da fonte do spaguetti western em alguns episódios e isso irritou muitos atores e produtores que diziam que a tv havia exaurido o tema. Azar o deles, pois o público, cansado de ver mocinhos de cara limpa e muito "certinhos", contrastando com aquela época de contra-cultura preferiu ver DJANGO entrando com um caixão em uma rua enlameada e tão sujo quanto ela, SARTANA  enfrentando vários ao mesmo tempo com sua pequena, mas mortífera pistola, RINGO, diferente dos personagens  interpretados por Gregory Peck e John Wayne, matando sem piedade os invasores de sua terra e o mais emblemático de todos, o temível  HOMEM SEM NOME irônicamente interpretado por um americano: CLINT EASTWOOD oriundo na época da... tv americana! Isso mesmo, de uma série inesquecível chamada RAWHIDE, onde ele fazia o segundo personagem importante. Na verdade, todos os outros protagonistas do western italiano eram homens sem nome, sem origem e muitas vezes tão bandidos quanto seus adversários. DJANGO, SARTANA, SABATA, PECOS e outros eram “homens sem nome”, sem identidade, à uma pequena exceção do seríssimo RINGO criado por Duccio Tessari e interpretado por Giulliano Gemma que tinha um nome: Montgomery Brown. E uma origem. Aliás, esse nome é quase o mesmo que o ator ganhou no início de carreira, Montgomery Wood, o que o fez protestar até que o sucesso deu-lhe o direito de usar o seu próprio. Misteriosos, desgrenhados e com barba por fazer esse era o arquétipo do Homem Sem Nome, o pistoleiro solitário impiedoso e amoral do western italiano.
E eles vieram cavalgar para sempre na fronteira da memória do Western cinematográfico.

                                          FIM DA PARTE I

Riding with the Men with no Name – Part one
By Cayman Moreyra

At the end of the 60s, the Western movies produced in Italy, better known as “Spaghetti Westerns” had already reached its apex and the Genre, defined as “American par excellence”, had passed not only through a revision, but through an almost complete destruction of it’s mythology as well (besides few productions that still showed on the screen vestiges of the old classics by John Ford, Howard Hawks and Delmer Daves, amongst others). The central thematic focus of the Italian Western, far from being a satire or a critic, can be summarized in the baroque structure of the first productions by Sergio Leone who, like many others, was influenced by some classic productions that acted as a basis for the aesthetic of the “Spaghetti Western”.
The thematic base of the Italian Western was formed from great films produced in U.S.A. such as “JOHNNY GUITAR”, “THE GUNFIGHTER”, “WINCHESTER 73”, “VERA CRUZ”, “3: 10 TO YUMA”, “THE MAN FROM LARAMIE”. The SW also borrowed from “B” Westerns by director Budd Boetticher and starred by Randolph Scott. At last (but not least!), there was the magnificent influence of the great Akira Kurosawa, perhaps the biggest inspiration of Leone. Therefore, one who thinks that the violent, often sarcastic and amoral position of the Westerns in the 60’s is only typical of the aesthetic of the Italian Western, he is mistaken. To have an idea about this, it is enough to observe Burt Lancaster’s character in VERA CRUZ, the bleak atmosphere of JOHNNY GUITAR or the sadistic torture suffered by James Stewart in a THE MAN FROM LARAMIE, not forgetting the blind revenge that is the central subject of WINCHESTER 73, also starred by Stewart.
All that the Italians did, [inveterate admirers of the Western, as can be proven by the comic book TEX, created in the 50’s] was to add a few more personal ingredients in the pasta, leading to the creation of a new style that, in less than one decade, brought down the whole mythology that Hollywood created and consolidated through half century of “AMERICAN WAY OF LIFE” advertising on the movies. The people who followed the train of History at that time, saw the death of Martin Luther King, the frustrate attempt to invade Cuba, the stain of blood in the Kennedy family, the rumors about the formation of dictators in countries of the third world and the humiliation suffered by the North American government in the Vietnam, amongst other tragedies
And what was left to the cinema? Well, many people blamed the TV when the Westerns made in America started to loose the market to the Europeans. Even though, TV shows such as THE VIRGINIAN, BONANZA, CHAPARRAL, BRANDED and CIMARRON STRIP had also explored the Spaghetti western in some episodes. This fact annoyed many actors and producers that said that the TV had exhausted the subject. Too bad for them, because the public at those counter-culture times, tired of seeing clean shaved “good guys” in white hats preferred to watch DJANGO carrying a coffin through a extremely muddy street, SARTANA, facing several enemies at the same time using just a small, but deadly pistol, RINGO, killing without mercy (something that Gregory Peck or John Wayne never did) the invaders of his land and the most emblematic of all: the frightening MAN WITH NO NAME, ironically played by an American: CLINT EASTWOOD, an actor that was coming from… the American TV!
Actually, many of the other protagonists of Italian Westerns were men without name, origin or destiny, and they often were as cruel as their adversaries. DJANGO, SARTANA, SABATA, PECOS and others were men without name, identity, with the exception of RINGO, created by Duccio Tessari and played by Giulliano Gemma, he had a name: Montgomery Brown, and an origin. By the way, his name is almost the same that the actor earned at the beginning of his career: Montgomery Wood. Mysterious, disheveled and unshaved, this was the archetype of the Man With No Name, the impious, solitary and amoral gunman of Italian Western. And they came to ride forever in the memory of the Western.

END OF PART ONE.