domingo, 26 de dezembro de 2010

ALFARRÁBIO 1 - Parte 3

E agora, o desfecho de um conto no qual não há  cenas de ação entre os personagens,  apenas a descrição de um momento vivido entre eles, mas que me serviu de exercício e estímulo para iniciar uma saga na qual faço uma grande homenagem a um leque de personagens do mundo macabro da literatura e do cinema. Um cross-over gigantesco, no qual eu procuro contar várias histórias interligadas, em diferentes cenários de uma realidade alternativa para os personagens e em diferentes épocas. Conto com os comentários de quem tiver tido um tempinho e interesse em ler as três partes. Eu agradeceria muito.


XIMENA - UM CANTO DE AMOR NAS TREVAS - Parte 3


     Ainda restava um fragmento de noite quando eles finalmente, extenuados, descansaram. Ela estava deitada abraçada a ele, seus longos cabelos ruivos espalhados sobre a face dele. Ela mexeu-se um pouco aninhando sua cabeça sobre o peito dele, acariciando-lhe os pelos do tórax. Ele olhava para o teto da cama de dossel pensando em nada, a não ser nela. Suplicando para que aquele  instante durasse o máximo possível.

- Diga-me – Ela falou – De onde você veio? Quem é você? É um homem, porém um tanto incomum... quase inumano.
- Sou um homem como qualquer outro, apenas fiz algumas escolhas diferentes, trilhei caminhos diferentes, andei por lugares onde alguns não ousariam nem em sonho e o destino que carrego fez de meu coração uma placa de granito, uma lápide, em alguns casos. Mas, agora, ao que parece, a dureza de tantos anos e tantas recordações, na maioria melancólicas, se desfez.
- Pode dizer o que estou pensando agora? – Perguntou ela.
  
    Ele fitou-a com um olhar sombrio, antes de responder:

- Não sei. Enquanto a perseguia, isso era fácil. Essa habilidade eu aprendi com um homem que viveu muito tempo no Oriente. Ele me chamava, quando eu era um garoto, de “Zaldunak”, que significa “Cavaleiro” na língua do povo dele, os antigos Bascos.
- Você viveu entre eles? – Ela ficou curiosa, algumas lembranças da velha Espanha afloraram-lhe na mente.
- Não. Ele apenas me treinou, quando eu perambulava pela Itália e a sua terra.
- Sabia que eu era espanhola?
- Sim, você pensa nisso muitas vezes.

   Ela sorriu e beijou-o de leve no queixo.

- Não sei se gosto de tê-lo invadindo meus pensamentos...
- Não acontece sempre, é preciso eu usar toda a força do meu treinamento para fazê-lo. Se fosse uma mulher comum, seria mais fácil. E, além disso, é preciso haver uma certa “ligação” entre mim e a pessoa.
- E a nossa foi a perseguição? – Perguntou ela.
- É isso. Eu queria apanhá-la e dessa forma, houve o contato.
- Que “técnica” é essa?

   Ele olhou para a lareira, cujas chamas  ainda crepitavam, como se quisesse buscar uma recordação remota em sua mente.

- Uma antiga arte milenar que foi usada durante séculos no Japão por uma sociedade de assassinos profissionais.
- Sei do que fala. Conheci um mestre em artes ocultas que me deu minhas espadas antes de morrer.

   Houve um breve silêncio entre ambos, quebrado quando os dois começaram a falar ao mesmo tempo. Ambos riram e ele falou primeiro.

- E agora? – Perguntou ele – O que somos um para o outro?

    Ela limitou-se mordiscar de leve o queixo dele, beijando-lhe o canto da boca. Soltou um suspiro leve, abraçando-se mais a ele e disse, com sua voz rouca:

- Pare com isso, sim? Não diga nada. Só me abrace e me deixe apenas ser sua agora, certo?

     Ele afastou um pouco os cabelos dela do rosto beijando-a ternamente na testa.

- Pode haver amor entre seres com esse dom que você me deu?

Perguntou ele, olhando fixamente para o teto.

- Você foi o único homem vivo que fez o que fez comigo.
- E o que eu fiz? Acho que foi o contrário, não? Você fez comigo.

     Ela mexeu-se olhando-o com aqueles olhos de íris cor de mel  que o atraíam tanto e falou terna:

- Eu fui mulher inteiramente, com você. Sempre faltou algo, mas eu me completei aqui. Se isso for amor mesmo, então somos os primeiros da espécie a experimentar  isso... só sei que não quero te deixar... pelo menos, não agora.

     Ele podia ler os pensamentos dela agora, o horror de cada união sexual que ela teve. Os arroubos animalescos e a morte sempre à espreita no final.

- Não quero te deixar nunca mais, Ximena. – Ele disse, acariciando-lhe a face perfeita. A mulher agarrou-se a ele. Sua coxa musculosa roçou-lhe a virilidade ainda um tanto ativa, como sempre acontecia aos homens daquela espécie. Ele mexeu-se inquieto e ela sorriu ao perceber.

- Quer mais?... – Ela disse, sorrindo maliciosamente.
- Não tinha certeza, mas agora... – Ele sorriu para ela, deslizando a mão pelo ventre da mulher até um pouco abaixo, onde havia uma porta que o levara ao extremo de uma noite sem fim, plena de luar e prazer selvagem. Ela fechou os olhos e disse:

- A velha cigana tinha razão...
- O quê? – Perguntou ele.
- Esqueça – Ela falou, deitando sobre ele, esfregando-se voluptosamente. – Apenas faça de mim sua mulher agora... só quero isso e mais nada...

     E ambos viraram uma única sombra na semi-escuridão. E o amor se fez, novamente.
   
                                           ______________________________                         
     
 O alvorescer surgiu em meio à nevoa que envolvia o castelo Karnstein. A Styria era ainda uma das regiões mais belas e selvagens da Europa. Seus vales, lagos e rios eram ainda um panorama de encanto e magia. Do alto, em uma janela de uma das torres do castelo, uma figura sinistra observava os dois cavaleiros lá embaixo. Gorna, o fiel guardião do castelo esperaria a volta da Condessa Mircalla para seu lugar de descanso e ele a protegeria como sempre. Distanciando-se devagar, um homem e uma mulher seguiam cada qual em sua montaria, alheios a tudo, enquanto se olhavam. Ele sentia-se maravilhado com a beleza dela na manhã, seus cabelos parecendo filtrar os raios de sol que dissipava a névoa rápidamente. Ela lhe sorria, atraída pelos olhos escuros e a face granítica do homem.

- Está faltando uma coisa. – Ela disse, com um olhar maroto.
- O quê? - Ele quis saber.
- Você ainda não me disse seu nome... quem é você?
- Muito estranho de sua parte, passar a noite na cama com um homem sem nome e só se importar com isso depois...
- Antes não era importante assim... – Ela disse, e ambos riram divertidos.

    Ele ficou falou serenamente olhando para o horizonte à frente:

- Chamam-me de muitos nomes... alguns deles bem estranhos. Que tal se tentássemos escolher um para você dirigir-se a mim, ao longo de nossa jornada?
- Uma proposta incomum... mas aceito. – E estendeu-lhe a mão onde, no dedo anular estava o anel que ele lhe dera.
- Virá mesmo comigo? – Perguntou, apertando-lhe a mão, esperançosa.
- Para onde você quiser, Loba Guerreira... - Os olhos dele brilhavam com paixão - ... E enquanto você quiser.

    E iniciaram um galope pelo vale à frente, em busca da fronteira e mais além, as montanhas da Transylvania e os montes Cárpatos, onde, num lugar que resistiu ao próprio tempo, um conflito iria ser decidido... mas isso em nada alteraria o destino de ambos, unidos para sempre pelo dom... e um estranho amor que surgiu entre a treva e a ruína.

                                                                           FIM



2 comentários:

  1. Cayman,
    Artista eclético
    Finca suas raízes
    Em solo profundo
    Extrai o néctar
    E expõe
    Seus dons naturais.
    Publique!
    Cleody

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  2. Obrigado mesmo! E ainda tive direito a uma poesia. Quanta satisfação para mim. Agora só resta você fazer parte do meu blog.

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