sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

ALFARRÁBIO 1

Ao que me parece, alfarrábio nada tem a ver com texto velho e enfadonho, pelo menos na minha concepção. Para mim, trata-se de algo como um pergaminho, um papiro, um grimório, até, que pode ser traduzido e interpretado de várias maneiras, porém, nunca ingnorado completamente. Aqui vai um dos meus contos de estréia no reino do fantástico e do sobrenatural, e faz parte de uma saga imensa que venho escrevendo há muito... será apresentado em 3 partes.

XIMENA
um canto de amor nas trevas

Autoria: Cayman Moreyra


STYRIA, ÀUSTRIA, A TRÊS SÉCULOS DAQUI...

    A noite fria na floresta milenar, acolhia a guerreira solitária que perscrutava a escuridão com o instinto sobrenatural que ela carregava consigo. Montada no fiel garanhão negro de sangue árabe e espanhol, ela seguia devagar pela trilha, apreensiva, mas sem medo. Não conhecia o medo desde que fora tocada pelo dom das trevas em tempos remotos. Estava excitada sim, pelo decorrer da caçada na qual, pela primeira e irônica vez, ela era a presa.
    De vez em quando sacudia os longos cabelos ruivos olhando em todas as direções, farejando seu perseguidor... a pouca neve que havia caído deixara seus vestígios no caminho à frente e nos altos pinheiros que margeavam a trilha. Era uma noite fria como tantas outras que ela já havia atravessado sozinha ou com seu amo e protegido, que agora estava distante num outro país, num castelo que resistia ao tempo nos montes Cárpatos.
     E ela teria que seguir solitária desta vez. Seu destino teria que ser cumprido antes do final desta noite. Pelas mãos dela ou do caçador que vinha em seu encalço agora. Um homem que uma vez jurara matá-la por um motivo sem razão de ser. Uma vingança pessoal da qual ela era inocente. A besta que vivia nela já matara e se alimentara de vários seres no curso de sua existência, mas não daquela vez, não trucidara aqueles que seu perseguidor queria vingar.
     E ela não usaria essa força contra ele. Seu dom não seria despertado naquela noite... estranhamente seu coração pedia que não fosse assim.
     Havia um clarão tênue lá na frente, na trilha. Uma cabana, uma caverna talvez... e alguém que, por alguma razão, habitasse aquelas regiões impenetráveis. Ou mesmo alguém que a esperasse para o confronto final. Ela estava cansada do jogo de gato e rato que começara há meses na Espanha e continuara até a Europa Central, na Transylvania e quase culminara no castelo Pandarin, nos montes Cárpatos.
   Sim, aqueles que o tempo ajudou a esquecer no passar  dos séculos haviam despertado. E com eles, até mesmo uma entidade que dormia nas trevas desde os primórdios da humanidade. E todos estavam unidos para uma bizarra conferência que decidiria de que lado ficariam contra uma força ainda mais maléfica que a deles juntos. Ela, Ximena Velasco, guardiã e companheira inseparável de Rubio Esteban Velasco, o vampiro predador, seu ancestral, estavam ali. Mas ela teve que deixar seu amo para resolver de uma vez por todas aquele conflito com o temível caçador que estivera lá também... e lhe dera uma dianteira.
     Agora, devagar e aos poucos, ela enxergava melhor no escuro. Seu instinto de loba predadora, divisava através da escuridão que se tratava de uma pequena fogueira no fim da trilha. Inexplicávelmente ela fora atraída para aquele lugar como um imã. Entrara na Áustria para ir ao castelo Karnstein, lar ancestral de uma imortal que agora estava junto dos outros imortais no castelo Pandarin. Fizera isso para atrair o caçador. Mas, ao contrário, fora atraída por ele.
    
     Ficou irritada com isso. Nenhum homem a fizera sentir-se assim. E ainda mais sendo um inimigo.

     Apeou do cavalo e começou andar na trilha a pé, devagar e alerta a qualquer movimento nas trevas. Suas compridas botas de couro que passavam dos joelhos faziam um barulho singular no solo. Mas ela não se importava. Sabia que ele era consciente de sua presença ali.

     Alguns metros de caminhada levaram-na até a clareira... e não havia ninguém, apenas uma pequena fogueira acesa, um cavalo amarrado a um arbusto e algo, que parecia ser um alforje não muito distante do fogo.
    
     Mas ela sentia uma presença. Seus sentidos selvagens ficaram em alerta. Tudo poderia acontecer a qualquer momento. Ela tocou com firmeza o cabo de um das espadas curtas banhadas com prata por um artesão oriental, que ela carregava presas às costas. A prata imaculada não era tão nociva para ela, que tinha um dom diferente daqueles que eram marcados pela licantropia.

- Já não era sem tempo, loba guerreira. – Uma voz forte veio da sua direita e um homem alto de trajes escuros saiu detrás de um arbusto.

     Ela voltou-se para a direção da voz ainda em alerta, e procurou olhar para as mãos dele, que carregava duas armas presas acima da cintura, com os cabos voltados para frente. Ela já vira o que aquelas armas eram capazes de fazer e com que rapidez faziam.

     O homem deu alguns passos na direção dela e parou.

- Veja – Disse, tirando as armas devagar e atirando-as ao solo.
- Estou à sua mercê, agora. – Continuou ele - E pode fazer como quiser, para mim nada mais importa.

     Ela ficou atônita. Passou mão enluvada pela linda e vasta cabeleira vermelha. Aquele homem deixou-a confusa naquele instante.

- Você me perseguiu até aqui para o quê? – Vociferou ela, irritada.
- Eu não a persegui, fiz com que viesse a mim.

     Era verdade. Ela sabia, e irritava-se com isso. Em sua cabeça, durante a longa cavalgada pelas florestas e vales da Europa, ecoavam palavras e pensamentos como se a guiassem até ali. Ele tinha o dom da telepatia, ela o sabia. Apenas não gostou de ter um suposto inimigo controlando sua mente.

- Sei de tudo agora. – Disse ele – Você não é quem eu procuro... Já achei os culpados verdadeiros há duas noites.

     Ela não disse nada. Limitou-se a cruzar os braços, meio confusa e ele adiantou-se até a ela mais um pouco.

- Eu tinha que fazê-la vir até a mim. Tinha que falar-lhe sobre o que descobri. – Ele estava próximo a menos de um metro. Se ela quisesse, poderia atirá-lo a uma grande distância com sua enorme força sobrenatural. Bastaria um tapa. Mas não o faria. Queria ficar perto dele, pois sentia que havia algo errado com aquele homem... como se estivesse a ponto de cair morto ali mesmo.

- O que há de errado com você? – Perguntou ela.
- Estou morrendo. Os licantropos que matei na noite passada foram minha última caçada.
- Pensei que eu fosse sua presa.
- Não era mais, loba guerreira, desde que deixei o castelo Pandarin em seu encalço.

     Ela o encarou e seus olhos cruzaram-se pela primeira vez sem animosidades. Ela não sabia por que, mas estava sentindo compaixão.

- Você está ferido? Foram eles? Os lobisomens que matou? – Ela quis saber.
- Eles sequer se aproximaram de mim o suficiente. Estou morrendo por que sofro de um mal incurável.
- O que fez com que mudasse com relação a mim?
- Foi Vlad. Ele me abriu os olhos. Acho que devia isso a mim.
- Vlad... – Ela sorriu e murmurou, lembrando as palavras do vampiro-rei para ela própria: “ Antes do fim de algumas noites, você irá confrontar-se com seu destino, loba guerreira. Ele está em suas mãos e nas mãos de um mortal... que não tem muito tempo.”

     Ele balançou o corpo um pouco, como se fosse cair. A mão dela tocou seu braço com firmeza e ele sorriu ao sentir a força descomunal daquela mulher que carregava dentro de si o estigma da besta selvagem. Uma mulher-lobo.

- Obrigado. – Ele agradeceu – Mas acho que é o fim, quero que me perdoe...
- Você não precisa dizer isso. Eu não lembro mais o que houve... é estranho, mas não tenho mais ódio de você...

     E ficaram ali calados. Ambos se olhando. Ele quebrou o silêncio:

 - Haviam três homens dentro de mim... há alguns dias. Só resta um deles agora. Um queria matá-la, outro conhecê-la e o terceiro... por mais estranho que pareça... queria amá-la.

     Ela tirou a mão do braço dele e franziu a testa. Os lindos olhos cor de mel brilharam com intensidade.

- Qual dos três resta agora? – Ela quis saber.
- Penso que é o terceiro. Mas antes que você diga algo... quero que fique com isso. – E assim dizendo tirou do colete um anel de rubi que brilhava como sangue e fogo ao mesmo tempo.

     Ela recebeu e ficou com ele na mão encarando o homem. Os olhos escuros dele estavam serenos. Ela não sabia o que dizer.

- Pertenceu à minha família. É o que restará de mim logo mais.
     Ela guardou o anel no bolsinho de seu próprio colete e sorriu para ele.

- Quer que eu o use como gratidão por haver me poupado?
- Faça como quiser. Apenas fique com ele agora.

     Ele olhou em volta como se procurasse algo e disse:

- Implorei aos imortais que me fizessem um deles antes... não queria deixar este mundo assim. Mas negaram. Até mesmo seu mestre. O vampiro Velasco.
- Por que acha que isso o salvaria? – Perguntou ela – Quer mesmo abdicar de sua alma? Não sabe que conseqüências isso traria?
- Não tenho mais nada a perder, bela Ximena.

     A maneira como ele falou foi terna, ela sentiu isso. E teve um pouco de pena... e algo mais. Mas não sabia explicar o quê. Seus instintos sobrenaturais estavam bloqueados agora, como a velha cigana disse que estariam um dia, no passado.

“- Deverá encontrar um companheiro, menina. Há sempre um homem entre mil. Ser abraçada por ele, sentir sua força... isso não será submissão de sua parte... será amor.”

     Agitada, sacudia agora a cabeça tentando afastar a imagem da velha e suas palavras. E então ela começou:

- Você quer mesmo viver a qualquer preço? Mesmo que isso lhe custe sua alma imortal?
- Eu me sentiria feliz até mesmo sendo igual a você.
- Acha que sou feliz assim? Acha que é bom viver às vezes como uma besta assassina?
- Não sei... só sei que quero viver. Entendeu? Viver... – E dizendo isso, seu rosto virou uma máscara de dor e ele amparou-se nela segurando-lhe os ombros.

      A mulher ficou ali parada, encarando-o, hesitando. Um dilema estava em sua mente. Poderia salvá-lo, isso era certo. Os outros imortais também poderiam tê-lo feito. Mas teria sido um milhão de vezes pior, se isso tivesse acontecido. Com ela, seria algo mais brando, sua maldição era quase uma benção, comparada à deles.

- Sabe que mudará para sempre, não sabe? – Ela advertiu.
- Se for fazer algo por mim, faça logo, diabos! – Ele estava tremendo. Teria que ser feito logo. E ela começou. No caso dela, não havia diferença se havia ou não lua cheia. Sua maldição viera de um toque diferente. Ela não era como os lobisomens da lenda, monstruosos, animalescos, sanguinários o tempo todo. Ela mudava de forma de um jeito mais peculiar, seu aspecto ficava apenas mais glabro, as feições pouco lembravam as de um animal. Mas a lua às vezes fazia com que o lado bestial viesse à tona às vezes, mesmo ela se transformando com um talento natural.

- Será como deve ser... – Ela disse e começou a invocar imagens e pensamentos de fúria e emoções fortes. A excitação percorria seu corpo e a adrenalina subiu a graus inconcebíveis. Ela tremia toda e ele sentiu isso. Sentiu que ela parecia crescer ainda mais, apesar de ser uma mulher grande e forte. Os olhos dela brilhavam com mais intensidade e haviam pelos crescendo na linda face. A boca abriu mostrando um par de presas ainda mais temíveis que as dos vampiros. Mas ele não temia aquilo. Já se acostumara ao terror sobrenatural desde criança.

     E de súbito, ela atacou. Suas mãos adentraram-lhe o colete por baixo do sobretudo, rasgando-o. Tudo que ele pôde sentir foi uma mordida quente e forte no lado esquerdo do peito. Uma dor seguida de uma sensação de choque percorreu-lhe o corpo e ele sentiu-se num turbilhão de situações diferentes. Imagens diversas passavam em sua mente torturada... desde a infância infeliz até há algumas noites em meio à sinistra reunião no castelo Pandarin... O aspecto tenebroso do Conde Orlock... o sorriso de escárnio do vampiro Lestat... o olhar de volúpia de Mircalla... as palavras do Conde Drácula quanto ao seu destino... as ameaças  do Barão Van Helsing, caso ele não entrasse para a sua temível “Legião”, o olhar curioso de Barnabas Collins, o semblante trevoso do Visconde  Armand Tesla, a beleza infernal da deusa Lilith, mãe de todos os imortais... o vampiro Velasco encarando-o sinistramente... e ela... Ximena... sempre ela... era dela que ele seria feito... era ela que o atraía... era por ela que ele morreria... mas ele não queria morrer... queria que ela soubesse... que ele a amava... ela tinha que saber!...

     Um uivo ao longe foi tudo que ele ouviu antes de perder a consciência. A dor o levara ao extremo de sua resistência...

Fim da Primeira parte.

2 comentários:

  1. Um texto com pouco clima e pouco descritivo, passivo de correções. Mas resolvi deixá-lo assim, para não esquecer de como comecei e onde devo fazer as compilações necessárias.

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  2. Cayman
    Amei! Não consegui parar a leitura.Um suspense cativante! Primeiro identifiquei-me com ELA, aí veio a mente LUA NOVA e todos os outros filmes de vampiro, só que este conto é bem melhor.Leitura densa, precisa nas descrições e sensual!
    P a r a b é n s! Continue, faço questão de ler a continuação.

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