quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

CRÔNICA DE UMA SESSÃO À BALA - NA TRILHA DOS HOMENS SEM NOME Parte II

E continuando a segunda parte deste artigo, veremos agora um aprofundamento do tema e algumas curiosidades de época que dão um sabor de saudosismo que só nos faz lamentar a excassez criativa e a inércia do cinema atual, que bem poderia dar uma espiada no velhos realizadores e tentar aprender um pouco, ao invés de partir para "blockbostas" cada  vez mais "manjados" e estereotipados, cheios de cortes e confusos que, quando muito esclarecem um pouquinho os furos do roteiro com edições mais "completas" em DVD ou BLURAY...

Uma multidão de curiosos acerca-se de um homem montado em um cavalo com uma corda pendendo frouxa, em seu pescoço. Enquanto é lida sua sentença por um juiz do vilarejo, o indivíduo parece estar entediado de tanto esperar pelo término da leitura de sua longa lista de crimes. Quando é dada a ordem para que o xerife local bata no animal, cumprindo assim a sentença, ouve-se um disparo de rifle e o prisioneiro escapa seguido por seu salvador. Mais adiante, num esconderijo qualquer, os dois dividem a quantia da recompensa pedida pelo bandido. Logo mais, os dois repetem o golpe: o caçador de recompensas leva o criminoso preso até a cidade mais próxima e reclama o prêmio pela sua cabeça que, por sinal já aumentou, e depois o salva na hora certa para em seguida dividirem o dinheiro. Seqüência típica do Western Italiano, repleta de ironia e humor negro. O quadro descrito pertence a um dos mais importantes filmes do ciclo: “THE GOOD, THE BAD AND THE UGLY”. Obra-prima de Sergio Leone, aqui talvez em seu melhor filme, cuja realização já foi considerada a mais barulhenta e cara produção do gênero. Para a infelicidade dos críticos, o filme em si é antológico e conta uma espécie de fábula para adultos, em que três homens, envolvem-se em uma busca por uma enorme quantia de dinheiro roubada em plena Guerra Civil Americana, cada qual tentando sobrepujar o outro até um inesquecível confronto a três. O famoso “TRIELLO”, como ficou conhecido.

No ano da produção deste filme, a trilha dos homens sem nome estava em pleno auge, com várias películas lançadas ao mesmo tempo por vários realizadores. Filmes que variavam de tema e qualidade, mas com a mesma identidade: usar no espaço mágico do “Western” todo um simbolismo que pudesse mostrar nas telas os efeitos culturais que causaram as transformações e mudaram a cara do mundo nos anos 60. Embora muitos pensem que nas produções italianas tudo era farsa e brincadeira, havia muita coisa por trás dos roteiros que a Cinecittà produzia. E o velho Monument Valley, no Utah/Arizona, foi temporariamente substituído pelas planícies da Almeria, na Espanha, onde a maioria dos filmes tinha locação, pois, várias estrelas do cinema Norte-Americano, além de Clint Eastwood, passaram a fazer parte daquele cenário: astros bastante conhecidos como Charles Bronson, Yul Brynner, Eli Wallach, John Ireland, James Coburn, Van Johnson, Van Heflin, Chuck Connors, Tab Hunter, Jeffrey Hunter, Audie Murphy [imaginem só! Em um de seus últimos filmes “The Texican”], Burt Reynolds, Joseph Cotten, Rod Cameron, Guy Madisson, Alex Cord, Jack Elam, Jack Palance, Mark Damon, Cameron Mitchell, Tony Anthony, Hunt Powers, Gordon Mitchell e outros, além dos ícones absolutos: Eastwood e Lee Van Cleef.
 
A Itália parecia ser a terra prometida e o Western ganhou uma densidade tão grande que muitos ousaram dizer que diretores como Sergio Leone eram precursores de um cinema novo. Outros “homens sem nome” vieram de outras partes do mundo, cavalgando em busca de um lugar na fronteira: George Hilton, do Uruguai, Tomás Millian, de Cuba, Gianni Garko, da Iugoslávia, William Berger, da Áustria, Klaus Kinski da Alemanha e... nosso saudoso Anthony Steffen do Brasil. É isso mesmo, tivemos também nosso homem sem nome, apontado até hoje, como um maiores ícones do Western Spaghetti e talvez o ator que mais protagonizou o personagem Django. Houveram rumores de que mais um brasileiro teria sido cogitado para fazer parte desse time: Tarcísio Meira. No entanto,não há nada de concreto sobre isso, mas já deu para imaginar “Il PistoleiroDell’ Ave Maria” protagonizado por ele?

O western italiano trouxe também um formato novo para o gênero e o impacto dessa inovação ficou claramente definido na abertura dos filmes, com montagens animadas mostrando uma linguagem cinematográfica mais atraente, ligada à música e esta sim, tornou-se uma característica típica, cujas trilhas tornavam-se antológicas logo no lançamento dos filmes. Não era raro ver alguém assobiando os temas na saída dos cinemas e depois os comentários: “Como era mesmo a música do duelo?”, “Rapaz, que trilha legal a deste filme que está passando!” Era incrível como o público daquela época, longe ainda dos arroubos sem nexo da mídia de hoje, tinha ouvido. E surgiram logo os monstros sagrados do Spaghetti Western, a começar pelo “Papa” das partituras cinematográficas: Ennio Morricone, o homem que realmente mudou a cara das trilhas sonoras e incidentais. Suas composições não têm preço no acervo cultural do cinema e o Oscar por ele recebido pelo conjunto de sua obra veio, em minha opinião, tardio. Não é à toa que Sergio Leone tenha dito que a música de Morricone falava mais do que os diálogos do roteiro. Todos os filmes de Leone têm sua marca. Morricone ainda fez as belas trilhas de: “O Retorno de Ringo” e “Uma Pistola para Ringo”, “Face a Face”, “O Dia da Desforra”, “Companheiros”, “Os violentos vão para o Inferno”, “7 Pistolas Para os McGregors”, e muitos outros. Além de Morricone outros nomes importantes foram Bruno Nicolai (que dirigiu muitas de suas trilhas), Luis Bacalov, Vasco e Mancuso, Nora Orlandi, Nico Fidenco, Marcelo Giombini, Stelvio Cipriani, Guido e Maurizio de Angelis e Francesco de Masi (falecido recentemente -“Dio te Acompagne”) que, ao lado de Fidenco, mais se aproximou de Morricone em termos de criatividade, mostrando uma característica própria de compor com trilhas que logo lhe deram destaque: “Quanto Costa Morire”, “Sartana Non Perdona”, “7 Winchesters Per Un Massacro”, “Arizona Colt” e outras mais, todas excelentes. E também merecem ser citados os cantores, sim, uma grande safra de belas vozes que nada deviam a Frankie Laine, Ed Ames ou Johnny Cash: Maurizio de Graf, Bobby Solo, Peter Tevis, Christy, Nico Fidenco, Sergio Endrigo, Don Powell, Rocky Roberts, Roberto Fia, Raoul, etc... Muitas das trilhas sonoras devem sua força à interpretação destes artistas, sempre bem inspirados. E muitas vezes, o filme em si era bem menor que o tema...

Epílogo:
 
Do período Áureo até o apogeu, o Spaghetti Western trouxe para o mundo um visual barroco, sarcástico, violento e muitas vezes politicamente incorreto, como foi o caso de “A Bullet for the General” e “The Big Gundown” de Damiano Damiani e Sergio Solima, respectivamente. Entre os grandes realizadores, além de Leone, houve mais três Sergios: Sollima, Corbucci e Garrone, todos com obras de renome. Ainda é preciso destacar grandes nomes como Romolo Guerrieri (Django mata por dinheiro/10.000 Dólares para Django), Duccio Tessari (Uma pistola para Ringo), Frank Kramer (Sabata, Sartana), Giulio Petroni (A morte anda a cavalo), Tonino Valerii (o dia da ira), Enzo G. Castellari (Keoma), Carlo Lizzani (Réquiem para matar), Ferdinando Baldi (Blindman)...
 
Uma observação:
- Há aqui um nome que geralmente não é incluído nas listas dos melhores, mas que certamente, deve ser lembrado: Demofilo Fidani, considerado o “Ed Wood” do Western Italiano. Justa ou não a comparação, guardo na lembrança um de seus filmes com muito carinho, pois foi um dos primeiros que vi num saudoso “poeira” da minha cidade: “Django e Sartana no Dia da Vingança [Arrivano Django e Sartana, è la fine]”. Pode até ser que Fidani mereça a alcunha, pois, como Ed Wood, ele com certeza amava o cinema e trabalhava em condições precárias. O Django feito por Hunt Powers, um de seus atores prediletos, é bem diferente de Franco Nero ou Anthony Steffen. E falando em diretores ruins, Fidani perde feio, para a maioria dos pseudocineastas dos “Block-Busters” atuais.

- O cinema de hoje bem poderia fazer uma saudosa homenagem e voltar a ocupar as pradarias da Almeria, não ao estilo de “800 Balas”, que por sinal é um bom filme, mas com uma homenagem totalmente fiel às melhores produções daquele ciclo dourado. Que Tarantino e Robert Rodriguez nos ouçam! Aqueles que como eu, tiveram a sorte de estarem presentes lá, sempre com algo de novo ou uma boa reprise para ver, sentem saudades de ver todos os heróis como sempre estiveram, solitários ou no máximo a três: Ringo, Django, Sartana, Pecos, Sabata, Gringo, Trinity e seu inseparável irmão e até o último deles, Keoma. Eram e serão sempre, eternos, cavalgando em nossas memórias daqueles cinemas obscuros, muitos dos quais não resta sequer... um nome.

By Cayman Moreyra

A small crowd gathers around a man tied over a horse. He has a rope around his neck and he is just waiting to be hanged for an incredibly long list of crimes. While the Sheriff reads the sentence, the man seems to be bored, just waiting for the end of that tedious reading. When the order to carry out the sentence is given, we hear a shot that cuts the rope around the prisoner’s neck who escapes from the town, followed by his savior. A few miles away, the two men divide between them the bounty offered for the bandit. Soon, the two men are repeating the sting: in another town, the fake bounty hunter earns an even bigger reward for the bandit, only to save him a little later. This is a typical example of a Spaghetti Western scene, full of irony and a dark sense of humor. The sequence described above comes from Sergio Leone’s classic “THE GOOD, THE BAD AND THE UGLY”, maybe his best film, whose production was considered the noisiest and most expensive movie of the genre. But unfortunately for the critics, the film is anthological, some kind of adult fable that tells the story of three men searching for a hidden treasure during the years of the American Civil War. As we know, the last confrontation of the three men became history: the famous “Triello”
In the same year that saw the release of “THE GOOD, THE BAD AND THE UGLY”, the trail of the “Men with no Name” was in full bloom, with many productions being made. The quality and thematic of those movies were very variable, but all of them had the same identity: to use the magic ambience of the “Western” to show the cultural effects that were changing the face of the world during the 60s. Despite the fact that many critics thought that everything about the Italian western was fake, artificial, there were a lot of significance behind the screenplays produced at Cinecittá. And the old Monument Valley in the Utah/Arizona border was temporally replaced by Almeria, in Spain, where many films were shot because many American stars started to be part of that landscape: Charles Bronson, Yul Brynner, Eli Wallach, John Ireland, James Coburn, Van Johnson, Van Heflin, Chuck Connors, Tab Hunter, Jeffrey Hunter, Audie Murphy, Burt Reynolds, Joseph Cotten, Rod Cameron, Guy Madisson, Alex Cord, Jack Elam, Jack Palance, Mark Damon, Cameron Mitchell, Robert Woods, Brett Halsey, Tony Anthony, Hunt Powers and Gordon Mitchell among others, besides the absolute icons: Eastwood and Lee Van Cleef.
Italy seemed to be the Promised Land and the western achieved such a stage of poetical depth that many dared to say that movie directors like Sergio Leone were the creators of a “New Cinema”. Other “Men with no Name” came from the four corners of the Earth, riding in search of their place in history: George Hilton, from Uruguay, Tomás Millian, from Cuba, Gianni Garko, from Yugoslavia, William Berger, from Austria, Klaus Kinski from Germany and our beloved Anthony Steffen, the Brazilian/Italian actor. Yes, Brazil also had its Western star, maybe the actor who played more often the character Django.
The Italian western brought a new concept for the genre, and the impact of this innovation became very clear in the cartoonish opening credits of many films, with great use of animation together with that magnificent new style of music. The music became on of the most recognized trademarks of the genre, and some achieved great success at the time of its release. It was very common to hear people whistling the themes of the movies after the sessions. Dialogs like “How was that song on the duel?”, “Man, what a groovy soundtrack this film has!” were present everyday after people went those movies. Soon, real Spaghetti Western legends were created, like Ennio Morricone, the master of the soundtracks, a man who really changed the face of film music. His compositions are priceless, Cinema history, and his Academy Award came too late for such an unbelievable artist. Sergio Leone used to say that Morricone’s music sometimes had more to say than the dialogs of the script. Morricone was responsible for the soundtracks of all the westerns made by Leone. He also created the music for “A pistol for Ringo”, “The return of Ringo”, “Big Gundown”, “Face to Face”, “Companeros”, “The mercenary”, “Seven guns for the McGregors” among many others.
But there were many other great musicians in the genre like Bruno Nicolai, Luis Bacalov, Vasco and Mancuso, Guido & Maurizio de Angelis and Francesco De Masi (“Dio te Acompagne”), who was one of the most popular composers of the SW. He showed a great personality and creativity, creating unforgettable scores for films like “Quanto costa morire”, “Sartana non perdona”, “7 Winchester per un massacro” and “Arizona Colt”. Some great singers are also worth of note. Singers whose voices were in the same level of Frankie Lane, Ed Ames or Johnny Cash: Maurizio de Graf, Bobby Solo, Peter Tevis, Christy, Nico Fidenco, Sergio Endrigo, Don Powell, Rocky Roberts, Roberto Fia, Raoul, etc...
A big part of the power from the SW soundtracks comes from their performances in the songs. And some times, those songs were better than the films...
EPILOGUE:

From the early days until its apex, the Spaghetti Western brought to the world of cinema a baroque, sarcastic and violent look. The genre was, very often, politically incorrect. Also, a very strong left winged political point of view can be seen in such movies like “A bullet for the General” and “Big Gundown”, by Damiano Damiani and Sergio Sollima respectively. Among the filmmakers, besides Sergio Leone, there were other three Sergios: Sollima, Corbucci and Garrone. All of them were real masters of the genre. Many other filmmakers can be considered of great importance: Romolo Guerrieri ($10.000 Blood Money), Duccio Tessari (A Pistol for Ringo), Frank Kramer (Sabata, Sartana), Giulio Petroni (Death Rides a Horse), Tonino Valerii (Day of Anger), Enzo G. Castellari (Keoma), Carlo Lizzani (Kill and Pray), Ferdinando Baldi (Blindman)...

A comment:

There is one name that usually is not included in the lists of the best filmmakers, but certainly, must be remembered: Demofilo Fidani, considered the “Ed Wood” of the Italian Western. It doesn’t matter if that comparison is fair or not, I fondly remember one of the first films I saw on the big screen at a much missed Grindhouse of my town. It was “Arrivano Django e Sartana, è la fine”, starring Hunt Powers. Maybe Fidani deserves to be called Ed Wood of the Italian Westerns; both of them worked in precarious conditions and loved the cinema.

It’s about time to make a real homage to the Spaghetti Western, using once again the landscapes of Almeria. Not a homage like “800 Bullets”, a good film by the way, but an authentic western, true to the tradition of the Italian masters. I hope Quentin Tarantino or Robert Rodriguez are reading this article! Those who, like me, lived those glorious days, are long waiting for our missed heroes to return like they were: immortals, eternally riding in our memories, our memories of those obscure movie theaters, which no longer exist, not even… a name.



2 comentários:

  1. Grande Cayman! Ótima idéia republicar esse emocionado texto, ele precisava estar novamente online. Parabéns pelo blog e um abraço!

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  2. E obrigado a você pela visita, velho amigo. Se não fosse você e nosso saudoso DOLLARI ROSSO ele não existiria.

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